Já de nada vale a inquietação
Tudo tem um início e um fim
Os dias não começam nem acabam hoje
Nem o sol, nem o crepúsculo.
Perde-te no bailado que as sombras te oferecem para que à noite assistas tranquilamente ao embalar das palavras no colo da lua.
As tuas mãos perfumadas de alecrim, parecem adormecer sobre a noite
Inertes, acariciam as palavras que descansam no acolchoado das nuvens.
Silencia o momento… sente a fragilidade dos ventos
Das névoas
Das esperanças
Dos silêncios que as noites e os dias guardam dentro de ti. Há momentos na vida, só para escutar…
Os ramos das árvores soltam sussurros nos braços dos ventos onde as memórias escrevem recordações em vales banhados pelos néctares das primaveras.
Nas leiras do tempo escoam-se vidas
Entre o tempo que dura o cair das folhas dos plátanos
Repartido entre manhãs e noites e pouco mais…
Guardamos, sabe-se lá onde, sorrisos largos, tão grandes que por vezes não cabem nos olhos que iluminam a trilha dentro de nós.
Mas também aprendemos a sentir o rolar das lágrimas, pelas pestanas dos rios dos nossos olhos, sem revolta… porque à nossa frente cantam rouxinóis que desafiam a nossa coragem e assim, a força prevalece.
E nós, todos nós… feitos de nada quando uma brisa mais forte sopra…
E assim corre o tempo no rio da vida,
Sóis de amor, de saudade
De luta, de desfrute
De dor, de alegria
Ilusões, vitórias, derrotas…
Quando nos é permitido olhar o azul intocável do céu
Sentir o cheiro envolvente do mar
Ou contemplar o simples voo duma gaivota...
Meigo é o silêncio que nos revela a verdade de nada sermos, nos adiamentos, nos sonhos, nas vozes que guardamos em surdina dentro de nós.
Mas no lar da simplicidade
Semeiam-se nenúfares na íris da vida
Pinta-se de cores o breu da noite
Inala-se demoradamente o perfume das flores campestres.
É lá que habitam as memórias… permanecem mesmo depois do fim
Escrevem-se no respirar do tempo
Nos cantos dos pássaros
Nos risos das crianças
Nas paredes brancas das casas humildes
No cheiro das madeiras…
Ouves o crepitar do silêncio na lareira do sonhar?
Está reservado aos nobres de espírito. Sei-te um deles!
Vai! Procura o cheiro do rosmaninho nas montanhas, mesmo que tenhas que inventar asas e sobrevoar o teu tempo.
Vai! No lugar mais recôndito, encontrarás o que procuras… não estarás só, os olhos dos pássaros dar-te-ão a visão necessária para que possas encontrar a tua verdadeira essência.
TEMPO DA ALMA, Chiado Editora, 2014.


