Bloqueador de Selecao

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

AS DORES ACABAM.




É incrível, mas um dia toda dor acaba. É como acordar sem febre depois de noites de agonia. Você se pergunta, distraída: “Onde está a dor que eu deixei aqui?” Foi embora, de repente, sem ser notada, sem alarde. Um dia você percebe que alguma coisa parou de doer. Um dia você entende que não precisa mais daquela dor. Um dia você sente preguiça de sofrer e tem vontade de alongar a alma, estendê-la ao sol.
As dores acabam porque a vida é maior e mais teimosa.
Quando se está no olho do furacão, no fundo do abismo, velando um ente amado, rolando na cama vazia, a dor parece eterna, presença maciça, definitiva, que tudo ocupa e devasta. Ela fica ali, sentada no sofá, servindo-se do jantar, pulsando na outra metade do leito, rondando sua intimidade, compartilhando sua rotina. Lê seus livros, vai ao cinema com você, amiga íntima, inseparável. Torna-se familiar, corriqueira. Essencial. Reverenciada.
Quando se está em dor, a frase que mais se ouve é: “Vai passar... Nada como um dia após o outro”. Ou então “o tempo cura tudo!” Naquela hora, tudo soa ridículo, leviano, estúpido. Dá vontade de gritar, numa espécie de arrogância e vaidade às avessas: “Você não conhece a minha dor. A minha dor é a maior do mundo e nunca vai passar!”
Cuidado! A dor é aderente. Não se apegue demais, não se deixe seduzir. As sombras não protegem, apenas escondem. Não se aprisiona a dor sem tornar-se prisioneiro dela. A dor pode virar um vício. Uma grande justificativa. Uma explicação respeitável. O inferno consentido. Um destino e não um caminho. O tumor alimentado com diligência. O veneno tomado solenemente.
A dor que não é doença tem prazo de validade. Cumpre um ciclo. É percurso, mal necessário, remédio amargo. Expurgo. Esconjuro. Depuração. Quando ela acaba deixa um vazio, um descampado que será aos poucos inundado pela sua alma alargada, reintegrada que se espalhará como maré alta e tudo contemplará.
As grandes dores parecem inesgotáveis, insaciáveis. Mas mesmo as dores indizíveis, aquelas das perdas impronunciáveis, as dores abissais que contrariam as leis da vida, mesmo essas um dia passam. Param de fisgar, de sangrar. Cansam, aquietam. Libertam-se de nós e viram cicatrizes, marcas, tatuagens.

É comovente e belo trazer no corpo e na alma as marcas das dores bem vividas. Nada mais natural que fazer as pazes com nossas dores. Deixá-las partir sem medo. Lembrá-las sem sobressaltos. Reconhecê-las. Afinal, “nós também somos o que perdemos”.


(Hilda Luca)


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

MENSAGEM DO HOMEM TRISTE.




Passaste por mim com simpatia, mas quando me viste os olhos parados, indagaste em silêncio porque vagueio na rua. Talvez por isso diminuíste o passo e, embora quisesse chamar, a palavra esmoreceu-me na boca. É possível que tenhas suposto que desisti do trabalho, no entanto, ainda hoje, bati em vão, de oficina em oficina.
Muitos disseram que ultrapassei a idade para ganhar o meu pão, como se a natureza do corpo fosse condenação de inutilidade, e outros, desconhecendo que vendi minha roupa melhor para aliviar a esposa doente, despiram-me apressados, acreditando-me vagabundo sem profissão.
Não sei se notaste quando o guarda me arrancou da contemplação da vitrine, a gritar-me palavras duras, na qual se eu fosse vulgar malfeitor … ladrão até, porém, que nem de leve me passou pela mente a idéia do furto; apenas admirava os bolos expostos, recordando os filhinhos a me abraçarem com fome, retornando à casa.
Ignoro se observaste as pessoas que me dirigiam gracejos, imaginando-me embriagado, porque eu tremesse encostado ao poste; afastaram-se todas, com manifesto desprezo, contudo, não tive coragem de explicar-lhes que eu não tomo qualquer alimento, há três dias.
A ti, porém, que me fitaste sem medo, ouso rogar apoio e cooperação.
Agradeço a dádiva que me entendas, no entanto, acima de tudo, em nome do Cristo que dizemos amar, peço me restituas a esperança, a fim de que eu possa honrar, com alegria, o dom de viver.
Para isso, basta que te aproximes de mim, sem asco, para que eu saiba, apesar de todo o meu infortúnio, que ainda sou teu irmão.
(Chico Xavier).

domingo, 24 de agosto de 2014

PALAVRAS DA MINHA BOCA.



Ah! Palavras da minha boca,
sejam agradáveis, doces e encantadoras
às almas tristes, cansadas e sofredoras,
para animar, alegrar e motivar
e ajudá-las no caminhar!

Ah! Palavras da minha boca,
sejam pensadas, ponderadas e refletidas
às pessoas ansiosas e desiludidas
para ensinar, aconselhar, instruir
e animá-las a prosseguir!

Ah! Palavras da minha boca,
sejam poucas, ou bem escassas e medidas.
Não sejam ditas de forma irrefletida
E, ao conversar com almas machucadas,
possam, com amor, ser ponderadas!

Ah! Palavras da minha boca,
jamais entristeçam qualquer coração,
nem provoquem discórdia ou dissensão,
causando dor a quem me quer bem bem
ou fazendo chorar alguém!

Ah! Palavras da minha boca,
que eu seja sábia ao pronunciá-las,
tenha domínio próprio para refreá-las,
sempre as use para confortar os meus
e as transforme em louvor a Deus!


Da antologia "De Viagem Pela Palavra", Ed. Litteris, 2013




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