Acredito na eloquência dos pequenos gestos, nas palavras bem ditas, no toque, no olhar que pousa sobre o nosso olhar como quem diz "estou te vendo".
Acredito em presentes e mimos fora de hora, em flores inesperadas, em cartões escritos com zelo e alegria, em perguntas atenciosas, em conversas olho no olho.
Acredito em amabilidades, em cortesias, em gentilezas. Todo mundo acredita, eu sei, mas nem por isso trocamos mais gentilezas. É como se as pequenas atenções pertencessem a uma categoria menor de preocupações, como se elas fossem o último item da nossa agenda, como se para elas precisássemos de um tempo diferente ou de uma sobra no nosso tempo.
É como se pensássemos: se der tempo, eu vou ligar, eu vou fazer. No entanto, é ao contrário: é preciso cuidar para ter esse tempo de gentilezas.
Ser delicado é o exercício de incluir o outro no nosso raio de ação, é a possibilidade cotidiana de externar o nosso afeto. Ser gentil é um estar na vida desarmado, atento, aberto. Está na qualidade do "bom dia", no comportamento no trânsito, no timbre da voz ao atender ao telefone, na disponibilidade para ouvir, acolher, trocar.
Não se trata de ser alegrinho, bonzinho, fofo... Trata-se de ser amável, de buscar o amável no outro, de imprimir cortesia, encantamento e prazer ao dia a dia. É um treino, uma escolha, uma atitude que se imprime e da qual se impregna porque gentilezas são na verdade transbordamentos da nossa alma. Somos nós os principais beneficiários da nossa amabilidade.
Nossa gentileza é tão somente a nossa própria experiência interior de cuidar bem de nós mesmos, de em sendo amorosos e afáveis conosco, podermos ser com os que nos cercam.
(Hilda Lucas).